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Nós pesquisamos para descobrir a história do nosso povo

A PUCRS coleta, preserva e pesquisa coleções de vestígios arqueológicos dos primeiros habitantes do Rio Grande do Sul, com mais de 10.000 anos.

Quando era moleque em Belém, capital do Pará, Klaus Hilbert gostava de juntar pequenos objetos na rua de terra. E, para isso, os dias de chuva eram especiais: a água lavava a superfície e fazia surgir cacos de vidro, pedacinhos de azulejo, pregos… Klaus limpava e guardava esses tesouros em uma caixa que ganhou da avó.

Acompanhando o pai, o arqueólogo Peter Paul Hilbert, numa expedição pela região dos rios Nhamundá e Trombetas, apaixonou-se pela profissão. "Era aventura pura, que combinava uma sensação gostosa e fantasiosa de descobrir coisas e histórias."

A paixão durou algum tempo, mas, em 1978, a Arqueologia parecia ter perdido o sentido. Aos 22 anos, Klaus queria fazer algo diferente, mais importante, alguma coisa social. Coube a seu pai convencê-lo de que a Arqueologia é, sim, social e importante, e as verdadeiras aventuras são aquelas que acontecem nas cabeças e nos corações das pessoas. "Fazer Arqueologia é contribuir para o bem-estar das pessoas, ajudá-las a encontrar seu lugar no mundo".

Klaus estava convencido. A visão de seu pai sobre a Arqueologia norteou seus estudos e, até hoje, guia sua pesquisa como professor do CEPA – Centro de Estudos e Pesquisas Arqueológicas da PUCRS. As fontes materiais da Arqueologia (cerâmica, metais, vidro, pedras, madeira, ossos e tantos outros vestígios) não são em si o objetivo, mas um caminho para se entender como viveram os antigos habitantes da nossa terra.

Quem entra no CEPA depara-se com fragmentos de cerâmica, pedras… muitos objetos facilmente reconhecíveis. Pode, entretanto, surpreender-se com elementos, digamos, um tanto curiosos: um saco de plástico transparente, cheio de pequenas lascas levemente amareladas. À primeira vista, parece serragem que, talvez, sirva para embalar e proteger alguma cerâmica mais frágil e valiosa.

Ao contrário das grandes histórias com que o cinema e a literatura apresentam a Arqueologia, as peças encontradas não são, exatamente, de ouro, prata ou pedras preciosas. As lascas dentro do saco plástico são, na verdade, escamas de peixes e elas mesmas são o tesou-ro. Não se trata de beleza ou, ainda menos, de valor comercial. No caso das escamas, elas mostram de quais peixes alimentaram-se os primeiros povos do Rio Grande do Sul, há mais de 10.000 anos. E, acredite, eles e você têm gostos parecidos.

Durante a última glaciação, o pampa gaúcho era habitado por povos nômades. Além de caçar nos campos, eles aproveitaram o recuo das águas marítimas (devido às grandes formações de gelo) para a pesca. No litoral do Atlântico, pescavam e coletavam moluscos e crustáceos. Nas áreas pampeanas próximas às margens das lagoas, os habitantes podiam pescar e coletar moluscos em grandes quantidades, da primavera a meados do verão.

A pesca nas regiões das lagoas, juntamente com outras atividades, garantiram a alimentação e a sobrevivência desses habitantes. Descendem deles os charruas e os minuanos que, com boleadeiras, arcos e flechas, perambulavam pelos campos, caçando emas, veados, tatus, ratões do banhado e capivaras. Quando voltavam ao acampamento, faziam fogo de chão e assavam a carne dos animais em espetos de madeira. Sim, era churrasco mesmo.

Esses mesmos grupos nômades foram os que mais defenderam sua terra frente à colonização europeia e à evangelização missionária. De fita amarrada na testa, prendendo os cabelos lisos e negros, lutaram com suas longas e temidas lanças de ponta de pedra até o início do século XX. Alguns tiveram participação importante nas batalhas entre espanhóis e portugueses e na independência de países da América do Sul. Na sociedade colonial que se formou, muitos se tornaram peões nas estâncias e deles herdamos grande parte da cultura do nosso povo.

Peter Paul estava certo: as verdadeiras aventuras acontecem nas cabeças e nos corações. Para que essas histórias sejam contadas, o Centro de Estudos e Pesquisas Arqueológicas da PUCRS preserva cerca de um milhão de fragmentos, de mais de 800 sítios arqueológicos. Se, de escamas de peixe podemos chegar ao churrasco, quem sabe o que ainda está para ser descoberto? A qualquer momento, você pode encontrar a Pesquisa da PUCRS na sua vida.

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